Celebridades

Ainda bem que o teu sangue é o dos comuns

O som da sirene anunciava a chegada da ambulância. Eu continuava caído a entrada da casa, onde finalmente a pequena grande queda terminou. Estava aí não faziam 30 minutos… Tirando o facto de não sentir a perna esquerda, estava tudo bem, continuava lúcido e ciente no que acontecia e acontecera.

A equipa médica chegou e logo tratou de me instalar na ambulância e nela seguimos para o hospital. Durante a viajem expliquei que não tinha consumido álcool nem outra droga ilícita, simplesmente subia as escadas e como, não sei, acabei por cair. Depois de ouvir a minha explicação, o enfermeiro que cuidava de mim enquanto na ambulância estava, me fez perceber que era uma pessoa de muita. Caíra de uma considerável distância mas estava lúcido com apenas uma fractura na perna esquerda.

Já no hospital, soube pelo médico que me ia ser feita uma transfusão, uma transfusão para repor o sangue que perdera e para parar a hemorragia. Mas confortaram-me e garantiram que o meu caso era simples… – Depois o teu grupo sanguíneo é o B+, será rápido.  O médico acabava de sair quando o paciente da cama que me estava a esquerda decide me felicitar: – Ainda bem que o teu sangue  é o dos comuns… Assim não sofres como sofro.

Foi quando olhei bem para ele. Estava abatido, parecia frágil mas aparentemente bem fisicamente, por isso perguntei o que realmente se passava com ele. Não hesitou e respondeu: – Sofri um acidente a cerca de dois meses, fui atropelado, brutamente atropelado enquanto esperava o táxi na paragem. Como deves imaginar, o responsável meteu-se em fuga… mas enfim, cheguei aqui ao hospital e recebi o tratamento que devia e graças a este, ainda estou cá a falar contigo. Fez uma pausa e continuou:  Seria tudo bom e com final feliz, se eu não pertencesse ao grupo sanguíneo O-, grupo raro. Tão raro que até para a cirurgia apenas uma unidade foi utilizada, a única que restava no hospital. Fez outra pausa, começou a chorar e continuou: Era suposto fazer pelo menos mais uma transfusão, mas até  agora não consegui doadores.

As lágrimas percorriam o seu rosto, por uns instantes senti a sua dor como se minha fosse. Caíram lágrimas, tentei me controlar e sugeri: – pede ao pessoal para chamar o doador do sangue que beneficiaste.

– Já pensamos e fizemos isso, mas ele doou a bem pouco tempo. Só poderá voltar a doar daqui a dois meses. Mas não posso esperar, apesar de estar aparentemente bem fisicamente, a minha hemoglobina (nível de sangue no corpo) vai baixando a cada dia que passa… Vou bebendo muitos líquidos, comendo muitas frutas, mas sei… O meu corpo precisa de hemocomponentes… perdi-os, tenho que repor o que saiu… Mas devo dizer-te que a minha fé, diminui a cada dia que passa.  

Fiquei por lá mais dois dias, desde aquela conversa, passamos a falar de tudo, ele me surpreendia com cada palavra que dizia. Forte e feliz! Uma felicidade ofuscada pela surra que a vida e o destino lhe davam… Pouco o conhecia mas já sabia, a vida estava a ser injusta com ele.

Saí do hospital e procurei doadores. Era de facto um grupo difícil de se encontrar, mas contactos me levaram a duas pessoas que podiam ajudar. Estas mesmas aceitaram fazê-lo se em contrapartida recebessem algum dinheiro. Dei o dinheiro, 150 dólares a cada. A fome acabara com solidariedade!

Fomos ao hospital e ao manifestar a intenção de doar para ele, passei a saber, ele estava morto, acabara por falecer na noite anterior. A sua hemoglobina baixara muito, não resistiu e abandonou o mundo dos vivos, dos gananciosos… O mundo onde ter um grupo sanguíneo O- pode ser um problema.

   Ouvi a informação, os olhos encheram de lágrimas e na mente apenas a imagem do jovem cheio de vida e sorridente que por três dias dividiu muito mais que o quarto, a vida comigo. Olhei para o céu e lembrei as suas palavras: – Ainda bem que o teu sangue  é o dos comuns!

A BwéVip faz desta forma mais um convite a reflexão… quantas vezes ouvimos (na rádio ou tv) que esta ou aquele pessoa está a precisar de sangue e nunca vamos lá para ajudar… Nunca temos tempo, estamos sempre demasiados ocupados para os outros… Mas queremos que estejam disponíveis para nós! Como este da história, muitos precisam, precisaram e não receberam… Vamos mudar a atitude e ajudar quem precisa! Émile Durkheim, um dos pais da sociologia moderna defendeu que todos os problemas que passamos agora, já alguém viveu e teve de passar por eles. Então saiba que amanha poderás passar por um problema que hoje outro alguém passa.

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