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Cientistas africanos desafiam homofobia no continente

Recentemente, vários países africanos promulgaram leis que criminalizam a homossexualidade, com base em argumentos sem sustentabilidade científica ou cultural. Para contrapor estas ideias, um grupo de académicos, quase todos cientistas, publicou um relatório onde desafiam estes preconceitos e explicam porque não fazem sentido

Foram vários os responsáveis políticos africanos que, nos últimos tempos, referiram-se publicamente à homossexualidade como sendo contagiosa e contrária ao que a Natureza definiu, além de ser uma tendência importada do Ocidente, que nada tem a ver com os africanos.

Um relatório publicado na passada Quarta-feira, pela Academia de Ciência da África do Sul, quer desmontar estes argumentos à luz da racionalidade científica, de modo a mostrar que não têm validade. Além do mais, referem os 13 autores do texto (11 são da África do Sul e os restantes dois do Uganda e Estados Unidos), as leis que criminalizam a homossexualidade deitam por terra os esforços desenvolvidos para conter o vírus HIV, assim como outras doenças sexualmente transmissíveis.

E o que diz o relatório, escrito pelo grupo de académicos, onde se incluem médicos, antropólogos, psicólogos e filósofos (a maior parte são cientistas)? O texto, refere a revista Nature, dá a conhecer vários documentos, alguns deles datados do século XIX, sobre a homossexualidade em África, “incluindo o casamento entre mulheres na Costa dos Escravos (inclui os actuais territórios do Togo, Benim e Nigéria), relações homossexuais entre rapazes-pastores da Etiópia, e prostitutos masculinos trasvestidos no Senegal”.

Acima de tudo, o relatório tenta contrariar a ideia de que a homossexualidade é contra-natura, dando conta de evidências científicas que mostram que os factores biológicos têm um papel decisivo na definição da orientação sexual dos humanos. A isto juntaram vários estudos que refutam, por completo, a ideia de que a homossexualidade ajuda a espalhar o VIH/Sida ou que encoraja a pedofilia.

Os autores salientam, igualmente, que criminalizar a homossexualidade é uma das maiores ameaças para a saúde pública no continente africano, ao dificultar e impedir muitas medidas que se destinam a estudar e combater algumas doenças, nomeadamente junto da população homossexual.

Tal como salienta a Nature, na sua edição online, as relações entre pessoas do mesmo sexo são ilegais em 38 dos 54 países do continente africano, e puníveis com uma sentença de morte em oito deles.

Segundo a investigadora sul-africana Glenda Gray, uma das relatoras principais, “o estudo tinha de ser liderado por africanos”. Se, pelo contrário, “fosse liderado por americanos, os governos africanos diriam que trata-se de propaganda ocidental”, avisa.

Vários activistas dos direitos-humanos e profissionais de saúde já vieram elogiar o documento, por tratar o tema da homossexualidade de forma científica e racional. Não obstante, indica a Nature, também existe quem avise que o relatório não terá o impacto desejado, a nível político e a curto-prazo, pois as atitudes homofóbicas ainda se encontram fortemente enraizadas por todo o continente.

Fonte: SAPO

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