Sem a garantia dada pelas lojas de marca, a maioria dos consumidores angolanos, que compra nos armazéns, pequenas lojas da periferia ou adquire bens duradouros no comércio informal, recorre a biscateiros para consertar aparelhos de som, televisores, ferros de engomar, máquinas de lavar, geleiras, telemóveis e até mesmo computadores.No mercado dos Congoleses, há mais de 50 técnicos de rádio.
A fila é enorme e nas bancas são visíveis os rádios velhos e novos a ser consertados, com os proprietários à espreita. O cenário é de desorganização, com fios ligados a fichas eléctricas por cima e debaixo das mesas. A confusão aumenta com o engarrafamento causado pelos clientes, que vão fazer compras e param para ver trabalho dos técnicos de rádio.
Este tipo de negócio é o ganha-pão de muitos jovens. Alguns têm formação profissional e outros aprenderam por curiosidade e acabaram por se tornar profissionais no ramo. Juntos fizeram o mercado dos Congolenses uma oficina de rádio e abriram caminho para muitos mais.
Ana Pedro levou o televisor para consertar e não se arrepende do trabalho feito. O aparelho, com seis meses de uso, deixou de arrancar com o controlo remoto. Sem dinheiro para comprar um novo, levou-o para arranjar.
O aparelho de Mariana Joaquim é bem mais antigo e já tem sete anos. “Tenho um pequeno televisor numa divisão da casa onde gosto de estar à noite. Uma luzinha começou a acender no centro do écran e de repente perdeu o som e a imagem. Estou triste porque ainda é dos antigos e, se calhar, nem vai ter conserto”.

Plasma avariado

Desde pequeno, Osvaldo de Menezes interessou-se pelo que “estava dentro” dos aparelhos eléctricos e electrónicos. Com formação média e profissional em electrónica, trabalha como técnico de rádio há dez anos e diz que tem amor ao que faz. Ainda sonha tornar-se engenheiro electrónico e ver no país uma indústria do ramo para as gerações vindouras. “Devagar se vai ao longe”, diz.
Para ganhar a vida, Osvaldo fez do mercado dos Congolenses o local de trabalho. A maioria dos clientes é gente de baixo rendimento, mas “algumas lojas mandam o seu material para ser consertado mesmo aqui no mercado”.
“Não existe um mercado maior que este em termos de técnicos de rádio, televisores e outros electrodomésticos. Por falta de espaços e melhores condições, cada um se vira como pode, dentro e fora do mercado”, diz.
Osvaldo de Menezes diz que os rádios e os televisores são os electrodomésticos com mais solicitação para consertos. “Há muitos plasmas para arranjar. Eles muitas vezes trazem falhas de fabrico, mas nós conseguimos consertar”.
O material a utilizar pelos técnicos de rádio não é difícil de conseguir. Numa fila estão os que consertam e na outra estão os que ­vendem as peças necessárias, importadas de vários países e cada uma com o seu preço.

Aparelhos esquecidos 

António Estevão quase se perde no meio de tantos aparelhos, que tomam conta do sítio onde trabalha. “Todo mundo tem algo electrónico em casa que precisa de conserto. Muitos têm apego aos aparelhos e preferem reparar a comprar outro e pagar mais caro”, diz este técnico que trabalha no ramo há 20 anos, consertando televisores, rádios antigos, videogames e DVDs.
O técnico de rádio garante que a procura é grande e que equipamentos electrónicos são muitas vezes esquecidos pelos donos no conserto.
“O mercado dos congoleses tornou-se especializado,de três a cinco aparelhos por dia são deixados para reparação”, diz o técnico, que se queixa da falha nos compromissos por parte de alguns clientes, que não retornam para buscar os bens já consertados. António Estévão diz que o acúmulo de aparelho no local e a falta de pagamento por parte dos donos significa prejuízo. “Muitas pessoas trazem os aparelhos e acabam por não os vir buscar. Como só recebemos após o trabalho feito, arcamos com o custo”. “Às vezes as pessoas deixam aqui e acabam por comprar um novo. Quando o aparelho passa muito tempo aqui, dou a alguém que precisa ou retiro as peças que ainda são utilizáveis”, refere.O conserto de um televisor pode custar de 12 a 15 milkwanzas, de acordo com a avaria.

Dona Francisca

A casa de dona Francisca de 50 anos tornou-se num armazém porque muitos dos rádio-técnicos dos Congolense guardam ali os pertences. “Foi a forma que encontrei para ajudar esses jovens e também de ganhar algum dinheiro. Fiz da minha casa uma espécie de armazém. Eles vivem longe e não têm como levar o material para casa”.
Ao guardar o material, Francisca goza de alguns privilégios, tendo os seus electrodomésticos consertados como forma de pagamento. “Às vezes, é melhor comprar um aparelho novo, mas há artigos que compensa levar para arranjar. Já levei ao conserto televisores, DVDs e até controlo remoto. Como eles guardam aqui os seus haveres, não me cobram, mas não abuso do apoio que me dão”, afirma Tia Francisca com um sorriso aberto.

Fonte: Jornal de Angola
Texto: Yara Simão

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