A definição da fotografia pelo reaproveitamento do impacto visual das cores quentes, o requinte oportuno do ritmo da montagem e a “desconstrução” da música e da dança, fazem do “I love kuduro” uma película inovadora de pendor documental, que supera as mais ousadas propostas do surrealismo clássico.

A soma do desempenho individual de Bruno de Castro, Sebem, Nagrelha, Hochi Fu, os Namayer, Tchobaly, Titica, Presidente Gasolina e Príncipe Ouro Negro, Tekasala e Shunnoz, Francis Boy e Cabo Snoop, dá-nos uma visão histórica de conjunto do percurso glorioso do kuduro, nos seus diferentes segmentos estilísticos.
Numa perpectiva diacrónica, a produção do “I love kuduro” representa o desempenho de várias gerações de um género musical que, ao longo do tempo, vai auferindo uma verdadeira expressão internacional, no sentido da absorção e divulgação dos valores culturais da angolanidade pelo mundo. Neste sentido, o documentário possui um carácter pedagógico, dando a conhecer ao mundo parte significativa do perfil dos vários protagonistas e da história mais recente do kuduro.
Do ponto de vista do prestígio cultural, “I love kuduro” é um importante contributo à consagração e internacionalização da filmografia musical angolana, de um produto que, num curto espaço de tempo, já passou pelas cidades de São Paulo, Toronto, Porto Alegre, Lisboa e México.
Coréon Dú, produtor e grande mentor do documentário, escreve o seguinte no site do documentário: “Sou angolano, cidadão do mundo e da geração do Kuduro. I Love Kuduro não é apenas um lema para artistas e amantes do estilo electrónico Angolano, mas passa a ser uma afirmação que começa a alastrar-se mundo fora, sendo também adoptada pelas pessoas que tomam contacto com o que se tornou num ícone da cultura contemporânea daquele país da África Austral. A minha infância em Angola foi marcada pelo surgimento do kuduro e, desde então, o género consolidou-se como o único estilo feito por jovens, para outros jovens onde reina a irreverência e a expressão criativa. Ele é um símbolo da herança cultural comum angolana, por ser “filho” de géneros de música e dança como o Semba e seus derivados, kazukuta do Carnaval, da kabetula e vários outros, tendo passado por uma mescla cultural com fortes influências dos sons electrónicos, vindos de outras parte do mundo”.
Por sua vez, Mário Patrocínio, realizador do documentário, escreve o seguinte sobre o processo que levou à concretização do projecto: “Há dois anos atrás, quando estava a desenvolver o “meu” projecto, conheci um empreendedor cultural que tinha também o objetivo de contar a história do Kuduro. Juntámos esforços, fizemo-lo o “nosso” projecto, e concretizámos o filme “I Love Kuduro”. Foi um privilégio ter estado em Angola logo nos primeiros meses de paz, pois mais tarde isso me ajudaria a entender melhor as histórias das muitas pessoas que escutei quando rodamos este filme. Foi também um privilégio, dez anos depois do meu primeiro contato com Angola, encontrar um país que se reconstrói à velocidade luz”.

História

Estão na origem e formação do kuduro, os clássicos, “Jacobino” (1998), de Tony Amado, e “Felicidade” (1999), com textos narrados por Sebem, canções que fizeram do Kuduro, um género musical de fácil identificação rítmica, consistência estética e peculiaridade sonora, a que se juntaram as inegáveis contribuições das coreografias “desconstruídas” de Tony Amado, dois nomes incontornáveis na abordagem da origem e formação do Kuduro. Contudo, são anteriores a “Jacobino” e “Felicidade”, as canções: “Amba kuduro (1994), captada no estúdio de João Alexandre, com participação especial de Big Nelo, “Dance, dance k’dance Van Dame”, “Muadiakimi Kuduro” (1995), produzida por Beto Max, “Mongoloi” (1997), produção de Filipe Lobo, de Tony Amado, e “Feijão Duro” (1997) de Calô Pascoal, dos Necaf Brothers, um dos primeiros grupos influenciados pela estética sonora e coreográfica proposta igualmente por Tony Amado.

Primeiro concerto

Tony Amado recorda, nostálgico e convicto, que foi a figura de cartaz no espectáculo que inaugurou oficialmente o kuduro, realizado em 1996, no campo desportivo do Club Vila Clotilde, organizado pelos radialistas: Paulo Gomes, Manuel Araújo e Sebastião Lino, apresentado por Jorge Gomes.
À época ainda viviam-se os efeitos do encerramento das principais editoras discográficas e gravadoras angolanas, fenómeno que ocorreu com o advento da independência de Angola, um período que ficou marcado pela dispersão de muitos músicos e compositores, instaurando-se um vazio na produção da Música Popular Angolana, fase permeável à evasão da música Zouk, dos géneros cabo-verdianos, do tecno e da house music, os dois últimos géneros dos quais o kuduro herdou, fundamentalmente, a sequência dos beat’s, invadindo as pistas de dança das principais discotecas de Luanda. Mathieu e Pandemónio, foram dois espaços de dança e entretenimento, muito preferidos pelos jovens nesta altura.
É assim que os produtores de kuduro empreendem a absorção e angolanização da batida tecno e da house music, géneros electrónicos surgidos em meados dos anos oitenta, na periferia de Detroit, EUA, com forte influência alemã, num processo que fundiu o ingrediente da rítmica do Semba, às formas entrecortadas do dizer poético, muito características do hip-hop, dando origem ao kuduro.

Dança

A dança, um dos suportes paradigmáticos do Kuduro, embora estruturalmente vizinha do break-dance norte-americano, foi inspirada numa plasticidade coreográfica reconhecidamente angolana, procurando, de forma natural e progressiva, um acabamento musical em que a melodia e a harmonia são visivelmente relegadas para um plano secundário, sobrevalorizando-se o ritmo e a palavra inusitada. “Vaca Louca” e “Salsicha”, dançarinos de Tony Amado e depois de Sebem, são dois nomes de referência incontornável, que levaram ao apogeu a plástica mais arrojada da dança acrobática do kuduro.

Temas

Tal como no hip-hop, a rua, e suas ocorrências do quotidiano, a crítica social e política, os comportamentos, os defeitos do adversário, designados “bifes”, ou o enaltecimento de virtudes, a auto promoção, e o uso irreverente da palavra obscena ou “obscenizada” são os temas e as estratégias recorrentes de composição do texto “kudurizado

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