Souleymane Cissé
Celebridades

Souleymane Cissé e o seu misticismo sem receios

À medida que o continente se tornou totalmente livre e sua produção cinematográfica começou, com todas as dificuldades, a ser estabelecida, o cinema de África começou a dar os passos seguintes aos pioneiros. Depois que a cinematografia de cada país  – ou ao menos dos países que conseguiram estabelecer uma produção mínima – passou pela sua “inauguração”, iniciou-se um processo de consolidação dos seus primeiros grandes nomes e a francofonia do oeste africano, no rasto de Ousmane Sembène, foi a que mais “autores” deu a conhecer em todo o mundo. Um desses nomes é o do maliano Souleymane Cissé, autor de um dos filmes mais belos de todos os tempos, A Luz, de 1987.

A diferença entre alguém como Cissé e os pioneiros começa já na biografia, que não tem o recorrente período como imigrante na Europa (quase sempre em França) e uma certa adesão ao olhar do colonizador. Cissé também foi estrangeiro, mas no vizinho Senegal, onde fez a escola secundária, mas logo voltou ao Mali, após a independência, em 1960, onde começou a trabalhar em documentários, ou seja, já estava envolvido com o cinema quando conseguiu uma bolsa para estudar em Moscovo. De volta ao Mali, trabalhou como director de fotografia, o primeiro passo no caminho rumo à carreira de realizador.

A Luz é a sua quinta longa-metragem e marcou a primeira exibição de um filme seu num dos maiores festivais do mundo, o de Cannes, onde venceu o prémio do júri. Passado num tempo indeterminado, no qual a magia é uma coisa real e quotidiana e o tom místico um reflexo animista na deslumbrante natureza do Mali, o filme conta a história de um feiticeiro já velho em busca do filho, que também tem poderes sobrenaturais, a quem pretende matar.

Motivações dessas acções e simbolismos, apesar de rapidamente explicados em letreiros informativos em francês, no início do filme, mantêm-se num nível hermético a um olhar estrangeiro. É difícil entender a lógica interna desse universo, o que ao mesmo tempo é fascinante, porque é um caso raro de actor africano que não se preocupa com esta recepção externa da sua obra. É um filme inscrito numa cultura, feito na sua língua (no caso, duas, bambara e fula), e convicto o suficiente da comunicação com quem partilha dos seus códigos sociais, imagéticos e simbólicos.

Para quem está do lado de fora, no entanto, não resta uma obra intransponível, apenas difícil de definir. Naquele que é talvez um dos filmes mais bonitos e bem realizados já produzidos – não apenas em África, e sem hipérbole -, o ponto de apoio do espectador estrangeiro é a sua capacidade de conjurar o universo do filme em imagens e momentos de tirar o fôlego. Pode não entender-se exactamente o que se passa, mas a segurança com que essa ficção é mostrada é absolutamente entorpecedor, intoxicante.

A sensação – acentuada pela ausência de referências temporais e espaciais – é a de encontrar um filme feito em Marte, ou num planeta distante, chegado à Terra num meteorito.  Aproximá-lo de qualquer outro filme parece um desserviço, mas a referência pessoal de Cissé à União Soviética talvez ajude a situá-lo junto a filmes anormais como Cavalos de Fogo, de Sergei Paradjanov. Nos tempos mais modernos, é possível jurar que A Luz ecoou na obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul, vencedor da Palma de Ouro por Tio Boonmee Que Pode Recordar as Suas Vidas Passadas, e também um realizador que usa de modo exemplar a relação entre o cinema e a natureza. Curiosamente, ambos exibiram os seus novos filmes no mesmo dia, este ano, em Cannes.

Fonte: http://www.redeangola.info/especiais/souleymane-cisse-e-o-seu-misticismo-sem-receios/

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