Celebridades

Vaticano disposto a discutir se os padres devem poder casar

O designado secretário de Estado do Vaticano admitiu que a questão do celibato dos sacerdotes, não sendo um dogma da Igreja, é passível de discussão. As palavras do futuro secretário de Estado, cardeal Parolin, vêm sendo interpretadas como sinal oficioso de reformas que o papa Francisco teria em preparação.

Pietro Parolin, núncio apostólico na Venezuela durante quatro anos, deixou cair as palavras decisivas numa entrevista concedida há quatro dias ao jornal venezuelano El Universal: o celibato, disse, “não é um dogma da Igreja e pode discutir-se porque é uma tradição eclesiástica”.

Seguidamente, Parolin limita o alcance das palavras proferidas, de modo a que elas não o comprometam sobre o resultado final de um processo de decisão que ainda nem sequer terá começado: essa tradição eclesiástica, disse também, remonta “aos primeiros séculos [do cristianismo].

Depois da implementação aplicou-se duranto todo o primeiro milénio, mas a partir do Concílio de Trento insistiu-se muito nisso”.

Uma tradição que não cobre toda a História da Igreja Com efeito, a instituição do celibato obrigatório dos padres data do ano 390. Nos quase quatro séculos anteriores, a tradição era diferente, a maioria dos apóstolos eram casados e São Paulo teorizou mesmo sobre os méritos do casamento de padres e bispos, desde que fosse monogâmico nas palavras e nos actos.

É, em todo o caso, interessante e talvez reveladora a escolha de palavras do cardeal, ao sublinhar que se “insistiu muito” no celibato desde o Concílio de Trento (1545-1563), deixando espaço à interpretação de que em todo o primeiro milénio de prescrições celibatárias não se terá insistido tanto, nem aplicado com absoluta rigidez essas prescrições.

E nessa atenuação do significado do ano 390 Parolin não se afasta, como é sabido, da verdade histórica. O cardeal relativiza ainda o alcance da sua declaração, ao afirmar que “o esforço que fez a Igreja para estatuir o celibato eclesiástico deve ser considerado.

Não se pode dizer, simplesmente, que pertença ao passado”. E acrescenta que “é um grande desafio para o papa porque ele possui o ministério da unidade e todas essas decisões devem assumir-se como forma de unir a Igreja, não de dividi-la”. Admitindo a interpretação corrente de que o papa seja favorável ao fim do celibato dos padres, entre as forças de bloqueio e os factores de inércia com que terão de contar Parolin e Francisco inclui-se certamente a desconfiança sobre as consequências que essa reforma teria do ponto de vista do património da Igreja.

Com efeito, padres casados tenderão sempre a legar os seus bens a descendentes e não à Igreja como tal. Mas também aí a recente declaração do papa, a favor da utilização de imóveis da Igreja para alojamento de refugiados, indica uma abordagem das questões patrimoniais algo diferente da que tem sido tradição. A forma da decisão Na entrevista de Parolin é igualmente interessante a forma que antevê para a tomada de tais decisões de fôlego.

O cardeal assume que “a Igreja não é uma democracia”, e discute as propostas do teólogo alemão Hans Kung e do falecido arcebispo de Milão, cardeal Martini, que considerava a Igreja 200 anos atrasada em relação à sua época. Ambos deduziam daí que haveria que convocar um novo Concílio – um “Vaticano III”. Parolin contesta essa ideia, por um lado porque “a Igreja nunca poderá mudar ao ponto de se adaptar completamente ao mundo.

Se o fizesse, e se se perdesse nele, já não cumpriria a sua missão de ser sal e luz para todos”. Por outro lado, o cardeal considera que o Vaticano II já trouxe o núcleo essencial de inovações necessárias para responder aos desafios da modernidade (“fixou as directrizes para que a Igreja cumpra a sua missão no mundo de hoje”). A ser abolido o celibato dos padres, parece portanto provável que ele o seja por uma decisão do papa e não por um grande debate formal – embora as reflexões que antecedam essa decisão de algum modo unipessoal possam ser precedidas de algum tipo de consulta interna na Igreja: “É bom, nestes tempos, diz Parolin, que haja um espírito mais democrático no sentido de escutar atentamente e creio que o papa o indicou como um objectivo do seu pontificado”.

 

Fonte: RTP Noticias.

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